Bem-vindos a poesia...

Poemas urbanos que emergem a partir de situações limites do cotidiano das Megacidades. Uma forma digna de apresentar uma visão, através da poesia de Sérgio Gerônimo e Mozart Carvalho, principalmente, do cenário carioca contemporâneo.



URBANOSEMCAUSA















1/31/2013

Entrevista feita pela escritora Dorothea Nürnberg, tendo como mediadora a escritora Gloria Kaiser, aos poetas Mozart Carvalho e Sérgio Gerônimo, durante o lançamento do livro URBANOSEMCAUSA, no dia 10 de janeiro de 2013, às 17h, no Salão Concordia, no PEN CLUB da Áustria, em Viena, sob a presidência do poeta Helmuth A. Niederle.

DN – Hoje vocês estão lançando conosco o fascinante livro de poesia URBANOSEMCAUSA, de suas autorias, sobre as megacidades do mundo na atualidade, especialmente o Rio de Janeiro. Por que escolheram a poesia para expressar seus pensamentos, sentimentos, impressões?
UC – Primeiramente, agradecemos a oportunidade de falar sobre o nosso novo livro URBANOSEMCAUSA. Agradecemos, também, a acolhida por Dorothea Nünrberg, Gloria Kaiser e Helmuth A. Niederle, presidente desta casa o PEN CLUB da Áustria.
Falar sobre o Rio de Janeiro e especialmente sobre ele, a razão é simples, somos cariocas (rio que adormece veias/vielas, corações/coroação carioca, in Carioca) – carioca é o nativo da cidade do Rio de Janeiro. E qualquer situação relacionada a ele nos afeta, sobremaneira.
Inclusive, a razão da escritura desse livro começou com a "tomada do Alemão" (ilustração, in Sociedade Intoxicada), operação policial televisionada exaustivamente, onde uma comunidade, até então, controlada pelo tráfico de drogas é libertada, sendo agora "pacificada" pela ordem institucional governamental.
Sobre o porquê de utilizarmos a poesia, é que ela é, por excelência, o nosso modus operandis. Somos poetas de carteirinha (sou poeta em dedicação exclusiva, in Emprego) e desde os bancos escolares assim nos expressamos. Pertencemos a uma associação profissional de poetas, a APPERJ e atuamos incessantemente na divulgação poética (só assim continuo a criar/meu canto de leitura, in Leitura).
DN – Em seu livro as principais alusões são feitas ao Rio de Janeiro e Nova York, megacidades, que, de acordo a minha ótica, são extremamente diferentes. Como vocês definiriam a característica de uma metrópole? Não somente na quantidade de habitantes e o que mais?

UC – Nós entendemos que Rio de Janeiro e Nova York não são tão diferentes assim (time square, cinelândia/realidade e sonho, in Off Broadway), quando vivenciadas no dia a dia, como Viena também não é. Pensamos que não somente a quantidade de habitantes determinem uma metrópole, e nem os seus limites geográficos, mas interferem sim a variedade de pessoas de diferentes línguas e costumes. Hoje as megacidades são verdadeiras babéis, como a suposta Babel da Bíblia. Esta mistura de matizes diversos é uma característica bem marcante destas novas metrópoles (a poeira é igual/a criatura é igual/as almas divergem, in Minha cidade).
DN – A relação estabelecida por vocês com as megacidades abre um leque de sentimentos: paixão, amor, medo, choque, raiva, desgosto... Vocês citam, também, a perda da dignidade humana nas metrópoles, então de onde vem a fascinação em fazer parte delas ou existe alguma fascinação em ser um cidadão dessa metrópole?
UC – Bem, nós somos fascinados, por exemplo, pela Roma Antiga (acabamos de vir de lá) – Roma Caput Mundi. Ser cidadão romano era a pretensão de todos os indivíduos, em qualquer parte do Império Romano.


A ideia de ser cidadão é que nos traz os direitos e deveres com o outro. Assim sendo surgem todos estes sentimentos que você citou. Certamente que a perda da dignidade é ultrajante, mas colocamos aqui outra evidência: locais não considerados metrópoles, também, não contemplam com dignidade seus cidadãos. O fascinante disso tudo é poder participar dos movimentos, das mudanças, das tentativas de engrandecimento pessoal e coletivo (ser cidadão e ser romano/não suporto ser mais um arábico, in Multidão).
DN – O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein proclamou: os limites de nossa capacidade de nos expressarmos em palavras são, de fato, nossos limites no mundo.
Descrevendo uma megacidade, todos os seus aspectos através da poesia, poderia nos dar novos insights, novas possibilidades de entendimento e experiência? Talvez, até, novas possibilidades de lidar com as dificuldades?
UC – Nós concordamos com o filósofo Ludwig, mas pensamos, também, que as palavras não expressam suficientemente nossos sentimentos (o que não se pode apagar/é o convite audacioso/para seguir em frente..., in Urbanos). Por exemplo, vocês já viram o olhar de uma criança africana? Ou o sorriso de um bebê indígena em plena floresta amazônica? (aos povos da floresta/resistir às investidas, in Mar Zônia).
Não se precisam palavras! Quando estamos, realmente, observando o mundo a nossa volta, novas possibilidades e novas experiências surgem. A poesia marca o momento, fotografa, sintetiza as palavras. Como disse o poeta Walt Whitman: eu sou contraditório, eu sou imenso, há multidões dentro de mim.

12/27/2012

Guarani-Kaiowá.

o conflito anunciado.
a desmoralização marcada.
o desconhecimento do povo brasileiro sobre a sua própria gente.
que gente?
estamos envolvidos com os nossos umbigos.
protegidos, adormecidos em nossas ocas urbanas.
em ocas motorizadas, últimos modelos nas concessionárias
com o ipi zero. dentro de nossas ocashopping consumindo.
consumindo. consumindo, e consumido
sempre em nossas vidas.
contudo devastando, derrubando, matando o guarani-kaiowá.
eta!
essa terra tinha palmeiras,
onde ainda canta sabiás.
sabias?
...
hoje vivo aqui,
e o silêncio
matando índio de lá.

12/09/2011

SERURBANO

Sou
o poeta do betume
das ruas modernas
dos prédios
arranha-céus
meus olhos são
semáforos
verde e vermelho
quando estão em atenção
avanço para felicidade...

10/09/2011

URBANOSemCAUSA SAÚDA A POESIA

Urbanosemcausa brinda com Lucilia Dowslley. Amigos saúdam a Paz e a Liberdade de Ser, no MAC - Museu de Arte Contemporânea , Niterói. Uma festa linda. Uma celebração ao ser Criança. Uma tarde de emoções e poesia.

6/30/2011

C.a.R.d.Í.a.C.o.S

permitam-se um grito
a mente criativa
não se exaure
multidões atravessam os passos
alargam-se as identidades
escancaram as cidades
para que pousem tranquilas
no hangar do coração
o fluxo dos carros
nas venosas pistas
entopem, emparedam
obstruem o peito
a dor engarrafada alucina
conectores estressados
apagam-se
os corpos adormecem
o semáforo da vida incandesce
e o grito
continua... continua... continua...

6/26/2011

A chave

o apito vespertino
seis horas
a tranca noturna
no fundo da cela – sentinelas
armas apontadas para o peito
o desejo febril do futuro
limitado nos quatro cantos
a cela sela
o perfume ácido do suor
esfria-se no banho de gato
o odor manifesta-se
descamisando músculos
o forte cheiro de urina
embriaga a atmosfera
asfixiante revela-se
 a última gota da cancela
no estremecer das chaves
em mãos cativas do sistema
cobertores desdobram-se
silenciosamente em dedos engatilhados
a cama dura sustentam nervos e ossos
tesos, retesos, firmes
em construções meliantes
o último sinal
a grade cinza
espia o apagar das luzes
o baixar de calças sinuoso
 o flato – fato
e o homem adormece
sem nada fazer,
sem nada dizer
só espera
a chave do amanhã
novo cárcere
Mozart

6/25/2011

Apresentação do Urbanosemcausa no Corujão da Poesia Junho/2011

Lanterna

o colarinho do chopp escorria
em  franjas e os laranjas conversando
nem percebiam a observação incrédula
das palavras esparramadas no mármore
trincado da popular mesa democrática
eu que sou da classe de 52
não me enquadro nessa feira
certamente cometo outros delitos
nós todos em formato 3 por 4
absorvemos costumes ditos sociais
observo o horizonte agora 360 graus
da estação sobre-elevada de frente
às rotas rôtas (sic) de rostos e rastros
penso que sou um astro
celebridade momoinstantânea
afirmo que meu governo eu governo
um pré-texto pós-sádico
pois me martirizo em outdoors de plantão
sequestro almas seduzo expansões
de vazios...
mas sou cidadão
às vezes ligo a sirene e atravanco
trafego em greve transito assim mesmo
na faixa dupla e abuso
e aviso
quem for doente que me siga
você sabe com quem está falando?
minha casa meu lar alvo na mira
gira-gira lanterna hipnótica
em noite chorosa e sem radar
sem foco
sufoco
três ais e nenhuma ave-maria
Sérgio Gerônimo

Seis horas e alguns minutos

passam das seis - a chuva cai
Corujão da poesia - Fina Estampa Ipanema.
o espelho embaça na poeira e fumaça
os olhos acesos
iluminam a crua noite vadia
o sol já se afoga no horizonte
repousa flamejante
nas lamparinas frias das esquinas
homens rastejam nas paredes úmidas
o sinal verde renuncia a esperança
a tensão viscosa da pista molhada
os carros vão em vão
e o lugar esvazia-se de ilusão
a rua turva
o homem despe-se
a moeda rola
e o mundo cai
despenca no sombrio
e obscuro deus
caos kaos caos
Mozart

URBANOSEMCAUSA em New York


 Sérgio Gerônimo na 52th West St. - Brazilian Endowment for the Arts

Sérgio Gerônimo, Domício Coutinho (presidente BEA) e Mozart


Urbanosemcausa apresentaram seu trabalho no Brazilian Endowment for the Arts in New York. (in April)

My city

sometimes
I see the city
away from eleventh floor
the avenues are lost
at eleven o’clock
time is scarce
the departure is set
the buildings wake up
I see the lights
star-liki points
domed asteroids
potent supersonic motors
traces of brilliance
bombarding the universe
sometimes
near by the city
the dusty is the same
the creature is the same
the souls diverge
sex is fun
along the hills
against the barriers
prohibition or not
you know
in the city
sometimes
whatever.

Mozart

Translated by Dr. Ines Shaw, April 2011.

METROPOLIS

nocturnal eyes watch
the drizzle over the big city
from high up a building
a cheap motel sighs
a suburban anti-hero
does not belong to any class
he is class-less
a study in life learning violence
nicotine punch, alcohol and
something else
on his belt a thousand-one corrupted virtues
aberrations visions perceptions holy cow
in the shadow of his favorite cover
he is hiding from himself
scent-less despising the garbage
from which he survives
he crosses bridges of thoughts
one day
he’ll end up on someone’s head
whoever gave birth will flee
here lies the weather vain
the rudder of helms
locked up
he will moor behind
the multitudes
in the recesses of the underground
in the underbelly of the metropolis
below the drizzle
and the cheap motel
the city swallows up these men.

Sérgio Gerônimo
Translated by Dr. Ines Shaw, April 2011.

6/05/2011

R.O.T.I.N.A...

nunca morei debaixo de qualquer ponte
e nos altos das linhas topografias
somente linhas de alta tensão
épocas de rotas embaladas a algodão-doce
vivia nos ponteiros ideológicos
até que em uma faísca
raio carioca de um março capeta
os espaços dos arcos em rios
viadutos e afins transformaram-se
em lares bares e etcétera e tal
e os tolos nos montes serras em geral
corroeram as raízes sociais
inventaram comunidades
e as idades comuns legitimaram
asfalto versus morro
pobres versos ricos
brancos versos negros
risco versos pobre
ô rotina precária de imaginação
hei aonde ficou mesmo a humanidade?
Sérgio Gerônimo.

Algum Lugar


 ah... em algum lugar
deixei uma palavra
sinuosamente
copacabana
provocando descobertas
nas noites incertas
clandestinos



ah... em algum lugar
nas vielas estreitas do passado
estamos nós
em nós
copacabana
que somos hoje
iluminados e porteiros

ah... Copacabana
nas areias dos descaminhos
despertados e errantes
andarilhos de seus desafinados
nas notas da bossa
e na calçada botas
a realeza sua alteza:
princesinha do mar

Mozart